Eu acho que a gente vive tão mal, que às vezes a gente precisa perder as pessoas pra descobrir o valor que elas têm. Às vezes as pessoas precisam morrer pra gente saber a importância que elas tinham, e isso aconteceu uma vez na minha vida.
Estava eu na minha casa, a noite, quando recebi um telefonema do meu irmão dizendo que minha mãe estava morta. Minha mãe era nova, 42 anos, cheia de vida... De repente não existe mais.
Fico pensando assim, que às vezes, na vida, o ensinamento mais doído seja esse: quando na vida nós já não temos mais a oportunidade de fazer alguma coisa, o inferno talvez seja isso - a impossibilidade de mudar alguma situação. E quando as pessoas morrem, já não há mais o que dizer, porque mortos não podem perdoar, mortos não podem sorrir, mortos não podem amar, nem tão pouco ouvir de nós que os amamos.
Eu me lembro que um tempo antes de minha mãe morrer, ela havia me ligado. Foi a última vez que eu falei com ela, e eu me recordo que naquele dia eu estava apressado, com muita coisa pra fazer, prova colégio, exposição, feira de ciências, e fiz questão de desligar o telefone rápido. Sabe quando você fala, mas fala na correria, porque você tem muita coisa pra fazer? E foi assim... Se eu soubesse que aquela seria a última oportunidade de falar com minha mãe lúcida, de ouvir suas palavras, de conversar com ela, eu certamente teria esquecido toda a pressa, porque quando a vida é assim, e você sabe que é a ultima oportunidade, você não tem pressa pra mais nada. Já não há mais o que eu fazer... Um grande exemplo é a última ceia de Jesus.
Não há pressa, o momento é feito para celebrar, a mística da última ceia está ali, Jesus reúne aqueles que pra ele tinha um valor especial, inclusive o “traidor” estava ali.
E eu descobrir com isso, com a morte da minha mãe, que eu não tenho o direito de esperar amanhã pra dizer que amo, pra perdoar, para abraçar, dizer que é importante que é especial.
O amanhã eu não sei se existe, mas o agora eu sei que existe, e às vezes, na vida, nos perdemos... Eu me lembro quantas vezes na minha vida de filho com ela, nós passávamos uma semana sem nos falarmos, porque houve uma briga, uma confusão. A gente se dava o luxo de passar uma semana sem se falar, e hoje eu não tenho mais nem 5 minutos, ou 1 único segundo pra conversar com alguém que foi importante, que foi parte de mim.
Não espere as pessoas morrerem, irem embora, não espere o definitivo bater na sua porta. Nós não conhecemos a vida e não sabemos o que virá amanhã. Viva como se fosse o último dia da sua história. Se hoje você tivesse que realizar a sua última ceia, porque é conhecedor que hoje é o último de sua vida, certamente você não teria tempo pra pressa. Você celebraria até o fim, e gostaria de ficar ao lado de quem você ama.
“Viver o cristianismo” é fazer a dinâmica da última ceia todos os dias. Viva como se fosse o último dia da sua vida; viva como se fosse a última oportunidade de amar quem você ama, de olhar nos olhos de quem pra você é especial.
E depois que minha mãe morreu, um tempo bem passado, eu descobrir porque eu gostava tanto dessa música que vou escrever agora. Ela não fala de um amor que foi embora; o compositor fez para a sua filha que morreu em um acidente; então, fica muito mais especial cantá-la e descobrir o “cristianismo” que está no meio das palavras, porque é assim, quando o outro vai embora é que a gente descobre o tamanho do espaço que ele ocupava.
“Não sei por que você se foi,
Quantas saudades eu senti,
E de tristezas vou viver,
E aquele adeus não pude dar...
Você marcou a minha vida
Viveu, morreu
Na minha história;
Chego a ter medo do futuro
E da solidão
Que em minha porta bate...
E eu!
Gostava tanto de você
Gostava tanto de você...
Eu corro, fujo desta sombra
Em sonho vejo este passado,
E na parede do meu quarto
Ainda está o seu retrato.
Não quero ver pra não lembrar,
Pensei até em me mudar...
Lugar qualquer que não exista
O pensamento em você...
E eu!
Gostava tanto de você
Gostava tanto de você...”
Agora o triste da música é que a gente precisa conjugar o verbo no passado, a pessoa já morreu, já não há mais o que fazer. Mas não tem nenhum sofrimento nessa vida que passe por nós sem deixar nenhum ensinamento...
Tem que nos ensinar, não dá pra sofrer em vão. Alguma coisa a gente tem que extrair...
Extraia o sofrimento e descubra o ensinamento. Se ele algum dia me tocou e me deixou algum ensinamento, eu faço questão de partilhá-lo com você agora. Depois da morte da minha mãe eu faço questão de viver a vida como se fosse o último dia.
Já que o passado é uma coisa do “inferno” e também “uma lanterna amarrada nas costas” (como diria Confúcio) e nós não estamos no passado, muito menos no “inferno” e nem discutindo filosofia. Temos então a possibilidade de mudar o verbo, de trazê-lo para o presente e de dizer olhando para as pessoas que são especiais. Quem sabe dizendo pra ela nesse momento...
Pra ela que ao seu lado, pra algum amigo que mereça ouvir isso, alguém que realmente faz diferença na sua história... Na sua VIDA!
Ao invés de nós dizermos que “gostava”, vamos dizer que “gostamos”, que "gosto"!
Vamos mudar o verbo! Vamos amar a vida! Vamos amar as pessoas antes que elas vão embora e seja tarde demais!
“E EU... EU GOSTO TANTO DE VOCÊ! EU GOSTO TANTO DE VOCÊ!”